As subespécies e as variações cromáticas

Introdução

O que é uma espécie?

Considerar espécie não se trata de uma tarefa fácil e uniformemente aplicável. O fator que é corroborado por todos os sistemas propostos está em que a espécie é uma unidade básica, por se originar de uma agrupamento natural.

Conceitos de espécie

Conceito tipológico
Conceito biológico de espécie - CBE

O conceito biológico se fundamenta no proposto de que uma espécie é considerada quando os indivíduos de um grupo são morfologicamente iguais e podem cruzar entre si gerando dessa relação uma descendência também capaz de gerar a sua descendência, ou seja, o resultado desse cruzamento é um indivíduo fértil geneticamente semelhante aos seus progenitores.

Conceito filogenético de espécie - CFE
Conceito filético geral de espécie - CFGE

Subespécie

Podemos entender uma subespécie como um nível intermediário de diferenciação evolutiva entre duas populações com ancestrais comuns. Ou seja, essas duas populações são oriundas de uma só que se espalhou por um território e, em um determinado momento, vieram a ficar isoladas reprodutivamente uma da outra por alguma barreira geográfica ou ecológica, e, assim, essas populações separadas passaram a trilhar caminhos evolutivos diferentes, podendo se diferenciar morfologicamente, ecologicamente ou comportamentalmente. Entendendo-se subespécie como um estágio evolutivo o problema passa a ser definir o quanto de diferenciação genética é necessária para se classificar um táxon numa ou noutra categoria, passando então a depender do conceito de espécie que o autor segue ao fazer a classificação. O conceito mais antigo é o biológico, todavia, com os avanços no conhecimento da genética passou-se a usar também os conceitos filogenéticos e filético. Um dos fatores importantes a se levar em conta na diferenciação de populações de aves é a vocalização, pois a comunicação entre elas se dá vocalmente e tem fundamental importância no processo reprodutivo. Por esta razão suas diferenças são muito importantes para se avaliar o isolamento reprodutivo entre duas populações. Muitos estudos recentes propõem a diferenciação de grupos de aves antes consideradas um único táxon em duas ou mais espécies válidas, utilizando-se as diferenças na vocalização, além dos caracteres morfológicos e sequenciamento genético como argumentos determinantes à sua separação. Estes trabalhos são chamados no jargão científico de “splits”.

Diferenciação morfológica
Diferenciação ecológica
Diferenciação comportamental

Exemplos

Ramphastos tucanus

Ramphastos vitellinus

Cripturellus noctivagus

Patagioenas picazuro

Brotogeris sanctithomae

Strix huhula

Euphonia laniirostris

Sporophila plumbea

Icterus pyrrhopterus

Gnorimopsar chopi

Hirundinea ferruginea

Chiroxiphia pareola

Sporophila bouvreuil

Zonotrichia capensis

Polimorfismo

Polimorfismo é a presença de mais de um tipo morfológico em uma mesma espécie em que os indivíduos convivem juntos em um mesmo habitat mantendo as relações intraespecíficas reproduzindo-se entre si. No caso de subespécies, existem também mais de um tipo morfológico em uma mesma espécie, porém esses tipos não convivem entre si, sendo separados geograficamente, portanto não ocorrendo a reprodução entre eles.

Lathrotriccus euleri

O Lathrotriccus euleri (enferrujado) apresenta um polimorfismo cromático, atingindo apenas a coloração da mandíbula, assoalho da boca e língua. Um morfo apresenta essas partes róseas, enquanto que o outro morfo apresenta-os laranja.

Strigidae

Algumas espécies da família Strigidae possuem um polimorfismo, apresentando um morfo cinzento e outro rufo.

Megascops choliba

Glaucidium brasilianum

Accipitridae e Falconidae

Algumas espécies das famílias Accipitridae e Falconidae possuem um polimorfismo, apresentando um morfo claro e outro escuro, sendo que nesse caso o escuro se trata de um melanismo, existindo ainda outras peculiaridades, como um terceiro morfo (rufo) e ainda, a presença de polimorfismo apenas na fase jovem, sendo que em alguns casos pode acontecer mimetismo associado.

Geranoaetus albicaudatus

Buteo brachyurus

Morphnus guianensis

Circus buffoni

Leptodon cayanensis

O Leptodon cayanensis (gavião-de-cabeça-cinza) apresenta polimorfismo apenas na fase jovem, sendo que existem três morfos diferentes, onde cada um mimetiza uma espécie do gênero Spizaetus.

Plumagem de eclipse

Denomina-se plumagem o conjunto de penas que cobre o corpo das aves. Quando falamos de plumagem, falamos sobre uma determinada característica em diferentes espécies, cada uma das espécies e subespécies de aves tem uma plumagem diferente, servindo como padrões específicos como o modelo de penas e a cor destas. A plumagem é, portanto, utilizada para identificar, distinguir e estudar as aves, fornecendo informações muito específicas sobre cada indivíduo, uma vez que dentro de cada espécie e subespécie a plumagem também costumam variar entre diferentes idades, sexos e estações do ano.

A plumagem de eclipse é aquele que apresenta os machos de muitas espécies, sobretudo de patos, após a época de reprodução, no verão. Nessa época se tornam bastante semelhantes às fêmeas, em contraste com a plumagem da época de reprodução.

Beleza temporária
A limitação da capacidade de voo

Durante a época de troca de plumagem o voo se torna mais difícil, e até impossível em espécies que trocam todas as rêmiges simultaneamente, como alguns Anatidae. Nesse período as aves são mais vulneráveis a predadores naturais.

A coloração da plumagem como fator de sobrevivência

Mimetismo

Mimetismo é a capacidade de algumas espécies de imitar cromaticamente ou morfologicamente uma outra espécie, tirando proveito disso, seja para despistar predadores ou até mesmo para se aproximar da presa sem ser notado. Exemplos de mimetismo são raros no caso das aves, sendo mais comum em insetos.

Buteo albonotatus - Cathartes

O Buteo albonotatus (gavião-de-rabo-barrado) realiza um mimetismo agressivo, imitando um urubu do gênero Cathartes em voo para conseguir se aproximar da presa sem ser temido. Ele sobrevoa o local de caça e quando vê alguma presa, mergulha para capturá-la.

Accipiter poliogaster - Spizaetus ornatus

O Accipiter poliogaster (tautató-pintado), na fase jovem, mimetiza o Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho), em uma forma de se defender dos predadores, em um mimetismo defensivo. Por ser uma espécie pequena, o jovem de Accipiter poliogaster poderia ser predado por alguns animais que teriam medo de Spizaetus ornatus, que é uma espécie grande. Sendo assim, imitando a espécie maior, o Accipiter poliogaster jovem está defendido. Quando ele chega à fase adulta, a plumagem mimética é perdida.

Leptodon cayanensis - Spizaetus

O caso do Leptodon cayanensis (gavião-de-cabeça-cinza) é muito interessante. A espécie apresenta polimorfismo na fase jovem, sendo que cada morfo mimetiza uma espécie diferente do gênero Spizaetus. Assim como no caso do Accipiter poliogaster (tauató-pintado), esse é um caso de mimetismo defensivo, onde a espécie menor mimetiza a maior para ser temido pelos predadores. Quando o indivíduo atinge a idade adulta, ele perde a plumagem mimética e adquire uma coloração própria.

Harpagus diodon - Accipiter bicolor

Harpagus diodon (gavião-bombachina) é uma espécie insetívora, enquanto que Accipiter bicolor (gavião-bombachina-grande) é uma espécie de maior porte que se alimenta principalmente de aves. Sendo assim, o inofensivo Harpagus diodon mimetiza Accipiter bicolor para parecer mais agressivo, caracterizando um mimetismo defensivo. Alguns autores também sugerem que Accipiter bicolor estaria mimetizando Harpagus diodon para conseguir se aproximar de suas presas sem ser temido, já que Harpagus diodon não oferece perigos a essas. Caracterizando assim um mimetismo agressivo.

Chondrohierax uncinatus - Outros Accipitridae e Falconidae

O mimetismo entre Chondrohierax uncinatus e diversos accipitrídeos e falconídeos é muito complicado e pouco estudado.

Ramphastos vitellinus culminatus - Ramphastos tucanus cuvieri

No caso do mimetismo entre Ramphastos vitellinus (tucano-de-bico-preto) e Ramphastos tucanus (tucano-grande-de-papo-branco), as espécies são distintas em todas as outras subespécies, inclusive na subespécie tipo.

O mimetismo só ocorre entre a subespécie Ramphastos vitellinus culminatus e a subespécie Ramphastos tucanus cuvieri. Por ser de grande porte, o Ramphastos tucanus enxota outras espécies da fruteira onde está se alimentando. Nesse caso, o mimetismo permite que Ramphastos vitellinus se alimente na mesma fruteira sem ser incomodado, pois a outra espécie pensa se tratar de um indivíduo da mesma espécie sua. Mas como a vocalização das duas espécies é totalmente distinta, a espécie menor tem que ficar sempre calada na presença da maior, pois se ele vocalizar, trairá sua identidade.

Orchesticus abeillei - Philydor rufum

Esse mimetismo ainda não possui boas evidências funcionais, mas acredita-se que Orchesticus abeillei (sanhaçu-pardo) mimetize Philydor rufum (limpa-folha-de-testa-baia) para se integrar em bandos mistos juntamente com essa espécie.

Camuflagem

É a capacidade de uma espécie de se confundir com o meio onde vive. Para tanto, o animal usa tanto a coloração quanto a forma, às vezes imitando folhas ou pedras. Essa peculiaridade confere ao animal a capacidade de passar despercebido diante de um predador ou mesmo diante de uma presa.

Caprimulgidae

As aves da família Caprimulgidae vivem geralmente no solo, e ali mesmo fazem seu ninho e criam os filhotes. Sendo assim, elas apresentam camuflagem para não serem notadas pelos predadores, se confundindo com o substrato (principalmente folhas secas caídas no solo).

Nyctibiidae

As aves da família Nyctibiidae passam o dia camuflados em tocos, parecendo serem continuação desses. Essas aves, inclusive, chocam e cuidam dos filhotes na extremidade desses tocos.

Charadriiformes

Muitas aves que nidificam no solo apresentam, quando filhotes, uma boa camuflagem, dificultando assim a ação de predadores.

A plumagem dos filhotes

Referência